Sem abelhas, sem vida? Como assim?

“Se as abelhas desaparecerem da superfície do planeta, então ao homem restarão apenas quatro anos de vida. Com o fim das abelhas, acaba a polinização, acabam as plantas, acabam os animais, acaba o homem.” – Albert Einstein

Abelhas produzem um mel delicioso e muito saudável, além de vários outros subprodutos como o própolis, a cera por exemplo, mas você sabe da importância da abelha para sua sobrevivência? Provavelmente você nunca pensou na importância das abelhas na manutenção do sistema natural.

A abelha é tão importante para a natureza, que a Dioneia mascipula, uma espécie de planta carnívora conhecida como vênus armadilha de mosca ou vênus papa-mosca, evita comer abelhas, um de seus principais polinizadores. Deixando biólogos surpresos em descobrir que há uma diferenciação, por parte da planta, de qual inseto é refeição e qual é polinizador.

Imagina, uma planta que vive de insetos, permite que a abelha sobrevive, para garantir sua sobrevivência por ser uma de suas principais polinizadoras. Eu sei que nós não somos plantas e não precisamos de ser polinizados por abelhas para reproduzirmos, não eh?
Mas você sabia que estima-se que mais de 90% das plantas com flores dependem de polinizadores animais?

E ainda que foram identificados 250 espécies de animais polinizadores de 75 culturas agrícolas brasileiras, sendo que 87% são abelhas?
Incrível né? Pesquisas demonstram que colocando abelhas em algumas culturas agrícolas, pode-se ter aumentos de até 36% na produção.

Consegue imaginar agora a importância e o valor da abelha para sua sobrevivência?

Sabe o que é mais curioso do que o fato de você praticamente não poder sobreviver sem o serviço de polinização das abelhas? Se elas fossem cobrar por esse serviço, custaria em torno de 200 bilhões de dólares ou 674 bilhões de reais ao ano para a agricultura global.

Isso basicamente para transferir grãos de pólen de uma flor para outra, que é a maior importância ecológica das abelhas, a polinização.
Mas antes de você querer sair por aí batendo asas, beijando flores para tentar roubar esse serviço das abelhas e ganhar um trocado desse bolo bilionários, você tem que saber de uma coisa super importante, e vou te contar logo logo. Primeiro quero te perguntar uma coisa.

Você sabe a diferença entre abelhas com ferrão e sem ferrão?

No Brasil, as abelhas com ferrão mais comuns são as abelhas africanizada, uma espécie híbrida do cruzamento da abelha europeia introduzidas no Brasil em 1839 com a abelha africana introduzida em 1956.

É uma abelha bastante agressiva, tem grande facilidade de enxamear, alta produtividade, tolerância a doenças e adapta-se a climas mais frios. Por isso, muitos apicultores preferem as Abelhas Africanizadas por serem consideradas mais resistentes a pragas e a doenças do que as africanas e europeias, sem falar pela maior produtividade.

Já as abelhas sem ferrão, conhecidas também como abelha indígena ou abelha nativa, com mais de 400 espécies no Brasil, são sociais, vivem em grandes comunidades e muitas exerce movimentos vibratórios em cima da flor para liberação do pólen, fator essencial para a polinização de algumas espécies específicas, que a abelha africanizada não consegue fazer.

A produção de mel é melhor, mas seu valor é pelo menos 3 vezes mais alto que o mel da abelha com ferrão africanizada. Do ponto de vista nutricional, o mel das abelhas sem ferrão é um alimento rico em minerais e proteínas. E o melhor, de fácil manejo e são responsáveis, dependendo do bioma, pela polinização de 80 a 90% das plantas nativas no Brasil.

Percebeu a diferença? Agora me diz, se você fosse criar abelhas ou comprar mel, iria preferir:

  1. Uma abelha agressiva, cruzamento de espécies exóticas, sem a função vibratória de muitas abelhas nativas e mel pouco valorizado comparado com a outra.
  2. Ou uma abelha social e sem ferrão, nativa da nossa terra, fácil de manejar, com valor do mel até 3 vezes mais valorizados e com valor nutricional riquíssimo.

Adivinha qual eu vou escolher? Possivelmente, a mesma que você escolheria, é muito óbvio. E agora que você já sabe a diferença entre uma e outra, vou te contar algo super importante antes de você sair por aí batendo asas, beijando flores para tentar roubar o serviço da pobre abelha e ganhar um trocado daquele bolo bilionários, está pronto? Vamos lá então…

Se você se tornasse uma abelha, seus dias estariam contados…

O serviço de polinização realizado pelas abelhas está em grande perigo. Uma série de mudanças globais que vem acontecendo recentemente tem impactado as populações de abelhas. Mudanças na gestão e no uso da terra, no clima, no uso de produtos químicos danosos à saúde das abelhas e a disseminação de pragas e doenças vêm levando a um declínio na diversidade e na abundância das abelhas, principalmente nos sistemas agrícolas convencionais.

O presidente da Confederação Brasileira de Apicultura, José Soares Brito, adverte que o uso intensivo de agrotóxicos está dizimando as abelhas. “Temos que ter a racionalidade para chegarmos a uma diretriz em que o animal fosse mais preservado; infelizmente, as políticas públicas não existem para a apicultura convencional”.

Achou que era fácil né?! Chega ser curioso não éh? Uma espécie de extremo valor para a produção agrícola, tem a agricultura como a principal atividade a colocá-las em risco. Não deveria ser ao contrário? Ou seja, a agricultura ser a principal atividade de preservação e fortalecimento das abelhas, considerando sua relevância para a produção e manutenção dos sistemas naturais?

Sim, e alguns países reconhecendo sua importância, estão investindo pesado nas abelhas. No orçamento de 2017, o Japão destinou mais de US$ 22 milhões ou R$ 72,6 milhões para centros de produção, o que inclui auxílio para a proliferação das plantas das abelhas.

As abelhas, têm se tornado cada vez mais um tema global de preocupação, estudo e pesquisa. Recentemente um grupo de pesquisadores de diversos países, incluindo o Brasil identificou dez medidas que governos e formuladores de políticas em todo o mundo devem considerar para salvaguardar os polinizadores e os serviços de polinização.

Dez políticas para polinizadores

  1. Elevar os padrões regulatórios para os agrotóxicos, o que inclui considerar os efeitos indiretos dos produtos nas avaliações de risco, e avaliar os riscos para uma série de espécies de polinizadores, e não apenas para as abelhas;
  2. Promover o manejo integrado de pragas (Integrated Pest Management -IPM), com a consequente redução do uso de agrotóxicos;
    Incluir efeitos indiretos e subletais nas avaliações de risco de culturas geneticamente modificadas (GM). Apesar de não sabermos o suficiente sobre o impacto dos cultivos transgênicos nos polinizadores, algumas culturas GM são tóxicas para os insetos e podem ter efeitos sutis nas populações de polinizadores;
  3. Regular o movimento dos polinizadores controlados para evitar a proliferação de doenças e conter a introdução de espécies invasoras;
  4. Desenvolver incentivos, como os esquemas de seguros, para ajudar os agricultores na transição para uma agricultura com menor uso de agroquímicos;
  5. Reconhecer a polinização como um insumo agrícola nos serviços de extensão;
  6. Apoiar sistemas agrícolas diversificados, a exemplo dos sistemas agroflorestais e policultivos, práticas que ajudam a manter os polinizadores por proverem a eles alimento e abrigo;
  7. Conservar e restaurar a “infraestrutura verde” (uma rede de habitats entre as quais os polinizadores podem se mover) em paisagens agrícolas e urbanas. Para polinizar as culturas, os polinizadores selvagens necessitam de habitats em torno dos cultivos que forneçam locais de nidificação e recursos florais. Essas manchas de habitat precisam ser suficientemente próximas para que insetos ou pequenos pássaros voem entre elas – não mais de 500m de distância para as abelhas médias.
  8. Desenvolver o monitoramento de longo prazo dos polinizadores e da polinização;
  9. Financiar pesquisas participativas sobre a melhoria dos rendimentos na agricultura orgânica, diversificada e ecologicamente intensificada.
  10. No Brasil, onde a agricultura é uma vocação natural, com expressiva participação na economia, a implantação dessas políticas terá um grande impacto socioeconômico e poderá garantir em longo prazo a sustentabilidade para o setor.

Conclusão

É impressionante a importância de algo que nem damos tanto valor no nosso dia a dia e todos nós devemos fazer algo pelas abelhas, principalmente por nossas abelhas nativas.

Está interessado nas abelhas nativas e quer saber mais, ou fazer algo para ajudar? Entre em contato conosco clicando aqui.

Virgílio Furtado
Líder de Projeto

Referências

Mel de abelhas nativas tem alto valor agregado


https://www.cpt.com.br/artigos/abelhas-com-ferrao-origem-da-apis-mellifera-e-mecanismo-de-defesa

Insetos polinizadores são fundamentais para a agricultura


https://www.cpt.com.br/cursos-criacaodeabelhas/artigos/abelhas-o-mercado-do-mel-no-brasil

A revolução das abelhas sem ferrão


http://www.agroceleiro.com/japao-investe-mais-de-r-70-milhoes-para-evitar-sumico-das-abelhas/

Planta carnívora poupa polinizadores de virarem refeição


http://www.ufac.br/ppgespa/polen/polinizacao.html

O serviço das abelhas que põe comida na mesa

Abelhas polinizadoras importantes para a agricultura brasileira


http://urucueabelhasnativas.blogspot.com.br/2010/04/abelhas-sem-ferraoa-importancia-da.html

Dez medidas para conservar os polinizadores e os serviços de polinização

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